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domingo, 16 de janeiro de 2011

Florbela e Raimundo

Longe de ti são ermos os caminhos,

Longe de ti não há luar nem rosas,

Longe de ti há noites silenciosas,

Há dias sem calor, beirais sem ninhos!



Meus olhos são dois velhos pobrezinhos

Perdidos pelas noites invernosas...

Abertos, sonham mãos cariciosas,

Tuas mãos doces, plenas de carinhos!



Os dias são Outonos: choram... choram...

Há crisântemos roxos que descoram...

Há murmúrios dolentes de segredos...



Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!

E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,

Fumo leve que foge entre os meus dedos!...


sábado, 4 de dezembro de 2010

Poesiadaboa no Musicadaboa

É sempre assim;

acontece de novo o que aconteceu outro dia:

outros olhos, outro azul e o mesmo novo

de novo o mesmo.

Uns e outros, uns dos outros e todos sempre

outros mesmos de sempre...




É sempre assim;

“viva!” em profusão...

personificação de ilusões atordoadas.

parada onde está, andando, correndo sem parar,

vive a vida a mangar do mau gosto que é

esconder-se para ser um outro lugar...



É sempre assim;

uma nova idéia devassada de novo

– As palavras morrem de ciúmes!

Novamente, “nova-mente”.

algum álibi? muito menos

prova de que é nova e de novo

mente...



É sempre assim, e assim será:

Um novo fim para o sempre novo

assim de mim.




Eduardo guilherme – assimdemim -

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Poesia da boa no Musicadaboa

Enviada por um amigo que se quer anônimo:

Por você


Há pouco, a tempestade... por ver

Ontem, a felicidade... por ter

Hoje, a tristeza do perder

Ainda assim, meu amor... por você



Nas ruas, o perfume... por saber

Na boca, o fel... de não poder

O coração, mais forte... por quê?

Tudo, por mais querer



No horizonte, a esperança... de rever

Amanhã, simplesmente viver

No peito?

Ah! No peito... todo o meu sofrer

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Jogos Mentais e política.

Mind Games - Canção título do quarto album de Jonh Lennon pós Beatles, o primeiro integralmente produzido por ele mesmo, inspira um pacifismo menos neurótico e mais consciente, incisivo porém metafórico, ao contrário de "Imagine", mais panfletário. Só pelo fato de citar a palavra "guerrilha" acirrou ainda mais a bisbilhotagem dos "arapongas" do Tio Sam que não o queria em seu lugarejo por motivos políticos.

Alberto de Oliveira.


Mind Games

We're playing those mind games together
Pushing the barriers, planting seeds
Playing the mind guerrilla
Chanting the mantra peace on earth
We all been playing
those mind games forever
Some kinda druid dudes lifting the veil
Doing the mind guerrilla
Some call it magic, the search for the grail

Love is the answer and you know that for sure
Love is a flower
You got to let it, you got to let it grow

So keep on playing
those mind games together
Faith in the future, outta the now
You just can't beat on those mind guerrillas
Absolute elsewhere
in the stones of your mind
Yeah we're playing
those mind games forever
Projecting our images in space and in time

Yes is the answer and you know that for sure
Yes is surrender, you got to let it,
you got to let it go

So keep on playing
those mind games together
Doing the ritual dance in the sun
Millions of mind guerrillas
Putting their soul power to the karmic wheel
Keep on playing those mind games forever
Raising the spirit of peace and love

Love...
I want you to make love, not war
I know you've heard it before

Jogos Mentais

Estamos jogando esses jogos mentais juntos
Expandindo as limitações, plantando as sementes
Bancando os guerrilheiros da mente
Entoando o mantra paz na terra
Andamos todos jogando
esses jogos da mente por uma eternidade
Alguma espécie de figura druida levantando o véu
Fazendo a guerrilha da mente
Alguns chamam de mágica, a busca pelo gral

Amor é a resposta e você sabe disso com certeza
O amor é uma flor
Você precisa deixá-lo, você precisa deixá-lo crescer

Portanto continuemos
jogando esses jogos da mente juntos
Fé no futuro, saindo do agora
Você não consegue bater nesses guerrilheiros da mente
Completamente em outro lugar
dentro das rochas de sua mente
É, estamos jogando
aqueles jogos mentais juntos eternamente
Projetando nossa imagem no espaço e no tempo

Sim é a resposta e você sabe disso com certeza
Sim é se render, você precisa deixa-lo,
você precisa deixa-lo ir

Portanto continuemos
jogando esses jogos da mente juntos
Fazendo a dança ritual ao sol
Milhões de guerrilheiros da mente
Colocando o poder da alma na roda cármica
Continue jogando aqueles jogos da mente eternamente
Elevando o espírito de paz e amor

Amor...
Eu quero que você faça amor, não guerra
Eu sei que você já ouviu isso antes

segunda-feira, 29 de março de 2010

Florbela Espanca

Cantigas leva-as o vento...

A lembrança dos teus beijos

Inda na minh´alma existe,

Como um perfume perdido,

Nas folhas de um livro triste.



Perfume tão esquisito

E de tal suavidade,

E mesmo desaparecido

Revive numa saudade!



Florbela Espanca

01/01/1916

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Quanto custa uma saudade? - H. Cesar Pinheiro

Nossa vida é bem cheia de percalço.

Nunca vivemos sem ter um amor,

Pra dar à nossa vida mais sabor.

Muitas vezes damos passo em falso.

Da ventura estamos no seu encalço.

Ao seu amor sempre se faça presente.

Porque na vida de qualquer um ente

Do amor sempre temos necessidade.

Quer saber quanto custa uma saudade?

Tenha amor, queira bem e viva ausente!



A ausência da pessoa que a gente ama

Muitas vezes dá uma desilusão

Que aperta bem fundo do coração

Que nos queima feito uma grande chama

E o corpo inteiro logo reclama

E nos deixa até bastante doente

Por uma grande falta, iminente.

Se você não conhece esta verdade

Quer saber quanto custa uma saudade?

Tenha amor, queira bem e viva ausente!

Não importa o tipo de amor sentido:

Verdadeiro ou aquele passional

Se somente um belo amor fraternal.

Porém quando a tal flecha do cupido

Nos atinge ficamos aturdidos.

Quem amamos, queremos bem presente,

Pois sua falta quem ama logo sente,

Porque grande dor no seu peito invade.

Quer saber quanto custa uma saudade?
Tenha amor, queira bem e viva ausente!


GLOSA: HENRIQUE CÉSAR PINHEIRO



MOTE: POR DESCONHECIMENTO DEIXO DE PUBLICAR O AUTOR DO MOTE, QUE SE POR ACASO VENHA A LER ESTE CORDEL E QUEIRA QUE SEJA FEITA A REPARAÇÃO, FAVOR CONTATAR COMIGO PELO e-mail:henriquecesarp@gmail.com



FORTALEZA, DEZEMBRO/2009

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

À MINHA NEREIDA

Sonhei que estava bem longe! Na Austrália.
E dormindo ao teu costado. Na Almeida.
De ti a brisa trazia cheiro de dália.
Ah! Que sonho me traz essa nereida.

Entretanto, ao sonho, em represália...
Tive que ficar com a solidão
E sozinho com minha genitália
Pensei e me contentei com a mão.

Para o amor será que existe distância?
Não creio...Pois a lei é do coração.
Pois é dele que nos vem esta ânsia.

Louca. Até por alguém que nunca se viu,
Que nos dá tamanha palpitação.
Quem diz o contrário é porque mentiu.

MASSAIMARA.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Florbela Espanca (II)

Sonhos


Sonhei que era a tua amante querida,
A tua amante feliz e invejada;
Sonhei que tinha uma casita branca
À beira dum regato edificada...


Tu vinhas ver-me, misteriosamente,
A horas mortas quando a terra é monge
Que reza. Eu sentia doidamente,
Bater o coração quando de longe


Te ouvia os passos. E anelante,
Estava nos teus braços num instante,
Fitando com amor os olhos teus!


E, vê tu, meu encanto, a doce mágoa:
Acordei com os olhos rasos d´água,
Ouvindo a tua voz num longo adeus!

Do primeiro livro de Florbela Espanca, Trocando Olhares (1915 - 1917)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Cearense, cidadão do mundo, Patativa do Assaré

Trailer do filme Patativa do Assaré - Ave Poesia de Rosemberg Cariry



O BURRO.


Vai ele a trote, pelo chão da serra,
Com a vista espantada e penetrante,
E ninguém nota em seu marchar volante,
A estupidez que este animal encerra.

Muitas vezes, manhoso, ele se emperra,
Sem dar uma passada para diante,
Outras vezes, pinota, revoltante,
E sacode o seu dono sobre a terra.

Mas contudo! Este bruto sem noção,
Que é capaz de fazer uma traição,
A quem quer que lhe venha na defesa,

É mais manso e tem mais inteligência
Do que o sábio que trata de ciência
E não crê no Senhor da Natureza.

Patativa do Assaré. - Assaré, 05 de março de 1909 - 08 de julho de 2002.

Uma das principais figuras da poesia nordestina do século XX. Segundo filho de uma família pobre que vivia da agricultura de subsistência, cedo ficou cego de um olho por causa de uma doença. Com a morte de seu pai, quando tinha nove anos de idade, passa a ajudar sua família no cultivo das terras. Aos doze anos, freqüenta a escola local, em que é alfabetizado, por apenas alguns meses. À partir dessa época, começa a fazer repentes e a se apresentar em festas e ocasiões importantes. Por volta dos vinte anos recebe o pseudônimo de Patativa, por ser sua poesia comparável à beleza do canto dessa ave.

Indo constantemente à Feira do Crato onde participava do programa da rádio Araripe, declamando seus poemas. Numa destas ocasiões é ouvido por José Arraes de Alencar que, convencido de seu potencial, lhe dá o apoio e o incentivo para a publicação de seu primeiro livro, Inspiração Nordestina, de 1956.


Este livro teria uma segunda edição com acréscimos em 1967, passando a se chamar Cantos do Patativa. Em 1970 é lançada nova coletânea de poemas, Patativa do Assaré: novos poemas comentados, e em 1978 foi lançado Cante lá que eu canto cá. Os outros dois livros, Ispinho e Fulô e Aqui tem coisa, foram lançados respectivamente nos anos de 1988 e 1994. Foi casado com Belinha, com quem teve nove filhos. Faleceu na mesma cidade onde nasceu.

Obteve popularidade em nível nacional, possuindo diversas premiações, títulos e homenagens (tendo sido nomeado por cinco vezes Doutor Honoris Causa). No entanto, afirmava nunca ter buscado a fama, bem como nunca ter tido a intenção de fazer profissão de seus versos. Patativa nunca deixou de ser agricultor e de morar na mesma região onde se criou (Cariri) no interior do Ceará. Seu trabalho se distingue pela marcante característica da oralidade. Seus poemas eram feitos e guardados na memória, para depois serem recitados. Daí o impressionante poder de memória de Patativa, capaz de recitar qualquer um de seus poemas, mesmo após os noventa anos de idade.

A transcrição de sua obra para os meios gráficos perde boa parte da significação expressa por meios não-verbais (voz, entonação, pausas, ritmo, pigarro e a linguagem corporal através de expressões faciais, gestos) que realçam características expressas somente no ato performático (como ironia, veemência, hesitação etc). A complexidade da obra de Patativa é evidente também pela sua capacidade de criar versos tanto nos moldes camonianos (inclusive sonetos na forma clássica), como poesia de rima e métrica populares (por exemplo, a décima e a sextilha nordestina). Ele próprio diferenciava seus versos feitos em linguagem culta daqueles em linguagem do dia-a-dia (denominada por ele de poesia "matuta").

Patativa transitava entre ambos os campos com uma facilidade camaleônica e capacidade criadora e intelectual ainda não totalmente compreendidas pelo meio acadêmico. Sua obra, de dimensão tanto estética quanto política, aborda diferentes temas e possui outras vertentes além da social/militante; como a telúrica, religiosa, filosófica, lírica, humorística/irônica, motes/glosas, entre outras. As múltiplas tentativas de categorização da obra de Patativa do Assaré (muitas vezes subjetivas e sem base teórica) expõem falhas inerentes dos próprios parâmetros de julgamento.

Estes, na maior parte, baseados em pressuposições e preconceitos que levam a dois extremos: a representação idealizada do mito, a exclusão pela classe social, nível de escolaridade etc.

sábado, 13 de junho de 2009

O Corvo - Edgar Allan Poe, tradução de Fernado Pessoa.

EDGAR ALLAN POE
(1809-1849)
FERNANDO PESSOA
(1888-1935)

O CORVO
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
É só isso e nada mais.»

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isso e nada mais».

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi...» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isto só e nada mais.

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
«É o vento, e nada mais.»

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
Disse-me o corvo, «Nunca mais».

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome «Nunca mais».

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».
Disse o corvo, «Nunca mais».

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este «Nunca mais».

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele «Nunca mais».

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Profeta», disse eu, «profeta — ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse. «Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

Nota: Nosso sobralense Belchior faz citações à essa obra e ao autor na cantiga "Velha Roupa Colorida" onde usa repetidamente os termos "nunca mais", "raven", "never", etc.

Confira:

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Augusto dos Anjos

Psicologia de um vencido



Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Monstro de escuridão e rutilância,

Sofro, desde a epigênese da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.



Produndissimamente hipocondríaco,

Este ambiente me causa repugnância...

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia

Que se escapa da boca de um cardíaco.



Já o verme -- este operário das ruínas --

Que o sangue podre das carnificinas

Come, e à vida em geral declara guerra,



Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há de deixar-me apenas os cabelos,

Na frialdade inorgânica da terra!

AUGUSTO DOS ANJOS

terça-feira, 2 de junho de 2009

Homenagem aos "Papudim" do Paulim Paulim - Por Alfredo Ossian Nogueira

O Que É Que Me Falta Fazer Mais?


FIZ O LIMA TORCEDOR DO CEARÁ

O ARAUJO NÃO VENDER UMA MUAMBA

DR. LEWTON NÃO CANTAR NEM MAIS UM SAMBA

CABECINHA VOLTAR A TRABALHAR

UM RALLY EU FIZ O ROGER GANHAR

PRO BARROSO CIGARROS NUNCA MAIS

O ARMANDO DO MARDONIO IR ATRÁS

O EDMAR ADORAR UMA FUMAÇA

O TOTONHO NÃO TOMAR UMA CACHAÇA

O QUE É QUE ME FALTA FAZER MAIS



FIZ PAULINHO NÃO SORRIR DE UMA PIADA

O CHICÃO UM SEGURO NÃO FAZER

GAFANHOTO DEZ MINUTOS SEM BEBER

E O DUDU NÃO VENDER UMA PIABA

O FERNANDO VIOLÃO NÃO TOCAR NADA

O ELANO TRABALHAR NOS TRIBUNAIS

O MARLOWE FICAR DUAS HORAS MAIS

O ALBERTO NÃO NOS MANDAR MAIS UM I MAIL

O OSSIAN NÃO DIZER UM NOME FEIO

O QUE É QUE ME FALTA FAZER MAIS.



FIZ SOBRAL LARGAR MÃO DO EXTINTOR

O PADILHA NÃO TER BRHAMA EM SUA MESA

O CHIQUINHO NÃO TRAZER UMA CERVEJA

O FRED NÃO CANTAR COMO TENOR

O AILTON NÃO DÁ UMA DE PROFESSOR

BACURIM NÃO FAZER UMA FEIRA MAIS

O VICENTE NÃO TORCER PELOS CORAIS

E O CESAR RETORNAR AO BNB

RETIREI OS CIGARROS DO GB

O QUE É QUE ME FALTA FAZER MAIS.



FIZ ROBERTO NÃO TOCAR MAIS SEU PANDEIRO

O RAIMUNDO TER ÓDIO DO CEARÁ

O FREIRE NO SEU BUGRE NÃO ANDAR

O RICARDO NÃO QUERER MAIS SER BLOGUEIRO

O JEFFERSON TRABALHAR O DIA INTEIRO

JUAREZ NÃO ANDAR NO AQUIRAZ

O LÍVIO NÃO BOTAR BONECO MAIS

MARCILEY NÃO TRAZER MAIS UM CD

O NETO UMA MENINA NÃO TRAZER

O QUE É QUE ME FALTA FAZER MAIS


OSSIAN NOGUEIRA – DEZEMBRO 2007

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Mais do Quintino - Poesias

Encontro das Águas

Vê bem, Maria aqui se cruzam: este
É o Rio Negro, aquele é o Solimões.
Vê bem como este contra aquele investe,
como as saudades com as recordações.

Vê como se separam duas águas,
Que se querem reunir, mas visualmente;
É um coração que quer reunir as mágoas
De um passado, às venturas de um presente.

É um simulacro só, que as águas donas
D'esta região não seguem o curso adverso,
Todas convergem para o Amazonas,
O real rei dos rios do Universo;

Para o velho Amazonas, Soberano
Que, no solo brasílio, tem o Paço;
Para o Amazonas, que nasceu humano,
Porque afinal é filho de um abraço!

Olha esta água, que é negra como tinta.
Posta nas mãos, é alva que faz gosto;
Dá por visto o nanquim com que se pinta,
Nos olhos, a paisagem de um desgosto.

Aquela outra parece amarelaça,
Muito, no entanto é também limpa, engana:
É direito a virtude quando passa
Pela flexível porta da choupana.

Que profundeza extraordinária, imensa,
Que profundeza, mais que desconforme!
Este navio é uma estrela, suspensa
N'este céu d'água, brutalmente enorme.

Se estes dois rios fôssemos, Maria,
Todas as vezes que nos encontramos,
Que Amazonas de amor não sairia
De mim, de ti, de nós que nos amamos!...

Entre Nuvens

Ameaça chuva. O pássaro na rama
Vem de ocultar-se. Agora permanece
A sombra do covil. Tudo parece
Triste como a saudade de quem se ama

Enquanto o Céu apenas se recama
De nuvens, não; mas, quando se incandesce
De um relampear profundo, a chuva desce,
Por fina força a chuva se derrama.

Em nós outros também o tempestivo
Amor é assim como este quadro vivo,
Que, há pouco, a natureza dominava.

Falo por mim, tirando por Maria;
Pois, quando na minh'alma relampeava,
Nos seus olhos, tristíssimos chovia!

Aracoiaba

Grande pedra partida, altaneira,
Bem ao meio, por onde fugindo
Porção d'água da fresta, saindo
Cai n'areia, fazendo a cachoeira.

Logo ao lado, ingazeira sombria,
Onde se ouve cantar passarinhos,
Uns por fora, outros dentro dos ninhos,
Na mais doce e morosa harmonia.

Lindo poço ao depois que, escalvado,
Sussurrante com força represa,
E, na mais natural singeleza,
Vê-se o rio de novo formado.

E, ao lado daquela ingazeira,
Sobre a pedra que eu disse ind'agora,
Pressurosa, sutil lavadeira
Lava a roupa de Nossa Senhora.

Quintino Cunha

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Vladimir Maiakòsvky

DESPERTAR É PRECISO

Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma Flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.

Vladimir Maiakòsvky

terça-feira, 26 de maio de 2009

Carlos Drummond de Andrade

A Flor e A Náusea


Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias, espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?



Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.



Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.



Vomitar este tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema

resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam pra casa.

Estão menos livres mas levam jornais

e soletram o mundo, sabendo que o perdem.



Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro, distribuída em casa.

Os ferozes padeiros do mal.

Os ferozes leiteiros do mal.



Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo

e dou a poucos uma esperança mínima.



Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.



Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.



Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

De nosso camarada Vicente Sabóia - Ode a um amor eloqüente.

CALADO

Silente nas amarguras da vida,
inerte, calado e enclausurado,
no íntimo uma grande ferida,
do amor eloquente abandonado.

Lágrimas que insistem em não cessar,
lamentos de um coração latente,
vida sombria em teimar
calar no sentimento inconsequente.

E no abandono do eco do delírio,
sobras de momentos de angústia, quase
marcados pelo eterno martírio.

E novamente de volta ao mundo de esperança,
as torturas vividas arduamente,
esvanecem-se nas veias das lembranças.

VICENTE SABOIA

sábado, 23 de maio de 2009

Um Soneto Para a Viola

" Velha viola de pinho, companheira
De minhalma constante e enternecida,
Foste tú a intérprete primeira
Da primeira ilusão da minha vida

Eu, contigo, cantando a noite inteira,
Tú, comigo, tocando divertida,
Sorrias se eu louvava a brincadeira,
Choravas se eu cantava a despedida.

Nas festas de São João, nas farinhadas,
Casamentos, novenas, vaquejadas,
Divertimos das serras aos baixios.

Perlustrando contigo pelo Norte,
Foste firme, fiel, feroz e forte,
No rojão dos ferrenhos desafios."

Dimas Batista Patriota

Extraido do livro Orlando Tejo - Zé Limeira, O Poeta do Absurdo.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Veio do poeta Manim, poesia de Luciano Maia.

Do livro Mar e Vento - Luciano Maia - Nascido em Limoeiro do Norte, Ceará, a 7 de janeiro de 1949. Advogado, Mestre em Literatura pela UFC. Cônsul Honorário da Romênia em Fortaleza.

SEMPRE

Também as manhãs
de primavera
os dias de verão
as tardes de outono
as noites de inverno
também as horas
que se perderam de nós
os encontros que se anunciaram
e não aconteceram
os entes queridos que sem
querer nos deixaram
os amigos que nos abandonaram
as quedas que sofremos
as alegrias quase felicidade
contam ao final da nossa vida
e desde agora nos ajudam a compreender
o mundo em que nascemos
vivemos e de onde um dia
iremos embora.
Estamos de chegada e de partida.
Sempre.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Florbela Espanca

Biografia

Mesmo antes de seu nascimento, a vida de Florbela Espanca já estava marcada pelo inesperado, pelo dramático, pelo incomum.
Seu pai, João Maria Espanca era casado com Maria Toscano. Como a mesma não pôde dar filhos ao marido, João Maria se valeu de uma antiga regra medieval, que diz que quando de um casamento não houver filhos, o marido tem o direito de ter os mesmos com outra mulher de sua escolha. Assim, no dia 8 de dezembro de 1894 nasce Flor Bela Lobo, filha de Antónia da Conceição Lobo. João Maria ainda teve mais um filho com Antónia, Apeles. Mais tarde, Antónia abandona João Maria e os filhos passam a conviver com o pai e sua esposa, que os adotam.
Florbela entra para o curso primário em 1899, passando a assinar Flor d’Alma da Conceição Espanca. O pai de Florbela foi em 1900 um dos introdutores do cinematógrafo em Portugal. A mesma paixão pela fotografia o levará a abrir um estúdio em Évora, despertando na filha a mesma paixão e tomando-a como modelo favorita, razão pela qual a iconografia de Florbela, principalmente feita pelo pai, é bastante extensa.
Em 1903, aos sete anos, faz seu primeiro poema, A Vida e a Morte. Desde o início é muito clara sua precocidade e preferência a temas mais escusos e melancólicos.
Em 1908 Antônia Conceição, mãe de Florbela, falece. Florbela então ingressa no Liceu de Évora, onde permanece até 1912, fazendo com que a família se desloque para essa cidade. Foi uma das primeiras mulheres a ingressar no curso secundário, fato que não era visto com bons olhos pela sociedade e pelos professores do Liceu. No ano seguinte casa-se no dia de seus 19 anos com Alberto Moutinho, colega de estudos.
O casal mora em Redondo até 1915, quando regressa à Évora devido a dificuldades financeiras. Eles passam a morar na casa de João Maria Espanca. Sob o olhar complacente de Florbela ele convive abertamente com uma empregada, divorciando-se da esposa em 1921 para casar-se com Henriqueta de Almeida, a então empregada.
Voltando a Redondo em 1916, Florbela reúne uma seleção de sua produção poética de 1915 e inaugura o projeto Trocando Olhares, coletânea de 88 poemas e três contos. O caderno que deu origem ao projeto encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, contendo uma profusão de poemas, rabiscos e anotações que seriam mais tarde ponto de partida para duas antologias, onde os poemas já devidamente esclarecidos e emendados comporão o Livro de Mágoas e o Livro de Soror Saudade.
Regressando a Évora em 1917 a poetisa completa o 11º ano do Curso Complementar de Letras, e logo após ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Após um aborto involuntário, se muda para Quelfes, onde apresenta os primeiros sinais sérios de neurose. Seu casamento se desfaz pouco depois.
Em junho de 1919 sai o Livro de Mágoas, que apesar da poetisa não ser tão famosa faz bastante sucesso, esgotando-se rapidamente. No mesmo ano passa a viver com Antônio Guimarães, casando-se com ele em 1921. Logo depois Florbela passa a trabalhar em um novo projeto que a princípio se chamaria Livro do Nosso Amor ou Claustro de Quimeras. Por fim, torna-se o Livro de Soror Saudade, publicado em janeiro de 1923.
Após mais um aborto separa-se pela segunda vez, o que faz com que sua família deixe de falar com ela. Essa situação a abalou muito. O ex-marido abriu mais tarde em Lisboa uma agência, “Recortes”, que enviava para os respectivos autores qualquer nota ou artigo sobre ele. O espólio pessoal de Antônio Guimarães reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981, ano do falecimento do ex-marido. Ao todo são 133 recortes.
Em 1925 Florbela casa-se com Mário Lage no civil e no religioso e passa a morar com ele, inicialmente em Esmoriz e depois na casa dos pais de Lage em Matosinhos, no Porto.
Passa a colaborar no D. Nuno em Vila Viçosa, no ano de 1927, com os poemas que comporão o Charneca em Flor. Em carta ao diretor do D. Nuno fala da conclusão de Charneca em Flor, e fala também da preparação de um livro de contos, provavelmente O Dominó Preto.
No mesmo ano Apeles, irmão de Florbela, falece em um trágico acidente, fato esse que abalou demais a poetisa. Ela aferra-se à produção de As Máscaras do Destino, dedicando ao irmão. Mas então Florbela nunca mais será a mesma, sua doença se agrava bastante após o ocorrido.
Começa a escrever seu Diário de Último Ano em 1930. Passa a colaborar nas revistas Portugal Feminino e Civilização, trava também conhecimento com Guido Batelli, que se oferece para publicar Charneca em Flor. Florbela então revê em Matosinhos as provas do livro, depois de tentar o suicídio, período em que a neurose se agrava e é diagnosticado um edema pulmonar.
Em dois de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas.” Às duas horas do dia 8 de dezembro – no dia do seu aniversário Florbela D’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal. Algumas décadas depois seus restos mortais são transportados para Vila Viçosa, “… a terra alentejana a que entranhadamente quero”.

Amar

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar:aqui....além...

Mais Este e Aquele, ou Outro e toda a gente...

Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!

Prender ou desprender? É mal? É bem?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante a vida toda é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu a voz, foi para cantar!

E se um dia eu hei de ser pó, cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca

terça-feira, 12 de maio de 2009

Luís de Camões - Soneto 11. Sugestão do poeta Manim.

Soneto musicado por Renato Russo entrelaçado com "I Coríntios 13". Adaptados e gravados em música pelo grupo brasiliense Legião Urbana com o título Monte Castelo.

Veja em: http://www.youtube.com/watch?v=AKqLU7aMU7M

amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

é um não querer mais que bem querer;
é andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

é querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata lealdade.

mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?