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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Um pouco sobre Mario Quintana...





Mario de Miranda Quintana nasceu prematuramente na noite de 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete, situada na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Seus pais, o farmacêutico Celso de Oliveira Quintana e Virgínia de Miranda Quintana, ensinaram ao poeta aquilo que seria uma de suas maiores formas de expressão - a escrita. Coincidentemente, isso ocorreu pelas páginas do jornal Correio do Povo, onde, no futuro, trabalharia por muitos anos de sua vida.




O poeta também inicia na infância o aprendizado da língua francesa, idioma muito usado em sua casa. Em 1915 ainda estuda em Alegrete e conclui o curso primário, na escola do português Antônio Cabral Beirão. Aos 13 anos, em 1919, vai estudar em regime de internato no Colégio Militar de Porto Alegre. É quando começa a traçar suas primeiras linhas e publica seus primeiros trabalhos na revista Hyloea, da Sociedade Cívica e Literária dos Alunos do Colégio Militar.



Cinco anos depois sai da escola e vai trabalhar como caixeiro (atendente) na Livraria do Globo, contrariando seu pai, que queria o filho doutor. Mas Mario permanece por lá nos três meses seguintes. Aos 17 anos publica um soneto em jornal de Alegrete, com o pseudônimo JB. O poema era tão bom que seu Celso queria contar que era pai do poeta. Mas quem era JB? Mario, então, não perde a chance de lembrar ao pai que ele não gostava de poesia e se diverte com isso.



Em 1925 retorna a Alegrete e passa a trabalhar na farmácia de propriedade de seu pai. Nos dois anos seguintes a tristeza marca a vida do jovem Mario: a perda dos pais. Primeiro sua mãe, em 1926, e no ano seguinte, seu pai. Mas a alegria também não estava ausente e se mostra na premiação do concurso de contos do jornal Diário de Notícias de Porto Alegre com A Sétima Passagem e na publicação de um de seus poemas na revista carioca Para Todos, de Alvaro Moreyra.



Corre o ano de 1929 e Mario já está com 23 anos quando vai para a redação do jornal O Estado do Rio Grande traduzir telegramas e redigir uma seção chamada O Jornal dos Jornais. O veículo era comandado por Raul Pilla, mais tarde considerado por Quintana como seu melhor patrão.



A Revista do Globo e o Correio do Povo publicam seus versos em 1930, ano em que eclode o movimento liderado por Getúlio Vargas e O Estado do Rio Grande é fechado. Quintana parte para o Rio de Janeiro e torna-se voluntário do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre. Seis meses depois retorna à capital gaúcha e reinicia seu trabalho na redação de O Estado do Rio Grande.



Em 1934 a Editora Globo lança a primeira tradução de Mario. Trata-se de uma obra de Giovanni Papini, intitulada Palavras e Sangue. A partir daí, segue-se uma série de obras francesas traduzidas para a Editora Globo. O poeta é responsável pelas primeiras traduções no Brasil de obras de autores do quilate de Voltaire, Virginia Woolf, Charles Morgan, Marcel Proust, entre outros.



Dois anos depois ele decide deixar a Editora Globo e transferir-se para a Livraria do Globo, onde vai trabalhar com Erico Verissimo, que lembra de Quintana justamente pela fluência na língua francesa. É por esta época que seus textos publicados na revista Ibirapuitan chegam ao conhecimento de Monteiro Lobato, que pede ao poeta gaúcho uma nova obra. Quintana escreve, então, Espelho Mágico, que só é publicado em 1951, com prefácio de Lobato.



Na década de 40, Quintana é alvo de elogios dos maiores intelectuais da época e recebe uma indicação para a Academia Brasileira de Letras, que nunca se concretizou. Sobre isso ele compõe, com seu afamado bom humor, o conhecido Poeminha do Contra.



Como colaborador permanente do Correio do Povo, Mario Quintana publica semanalmente Do Caderno H, que, conforme ele mesmo, se chamava assim, porque era feito na última hora, na hora “H”. A publicação dura, com breves interrupções, até 1984. É desta época também o lançamento de A Rua dos Cataventos, que passa a ser utilizado como livro escolar.



Em agosto de 1966 o poeta é homenageado na Academia Brasileira de Letras pelos ilustres Manuel Bandeira e Augusto Meyer. Neste mesmo ano sua obra Antologia Poética recebe o Prêmio Fernando Chinaglia de melhor livro do ano. No ano seguinte, vem o título de Cidadão Honorário de Porto Alegre. Esta homenagem, concedida em 1967, e uma placa de bronze eternizada na praça principal de sua terra natal, Alegrete, no ano seguinte, sempre eram citadas por Mario como motivo de orgulho. Nove anos depois, recebe a maior condecoração que o Governo do Rio Grande do Sul concede a pessoas que se destacam: a medalha Negrinho do Pastoreio.



A década de 80 traz diversas honrarias ao poeta. Primeiro veio o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Mais tarde, em 1981, a reverência veio pela Câmara de Indústria, Comércio, Agropecuária e Serviços de Passo Fundo, durante a Jornada de Literatura Sul-rio-grandense, de Passo Fundo.



Em 1982, outra importante homenagem distingue o poeta. É o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Oito anos depois, outras duas universidades, a Unicamp, de Campinas (SP), e a Universidade Federal do Rio de Janeiro concedem o mesmo tipo de honraria a Mario Quintana. Mas talvez a mais importante tenha vindo em 1983, quando o Hotel Majestic, onde o poeta morou de 1968 a 1980, passa a chamar-se Casa de Cultura Mario Quintana. A proposta do então deputado Ruy Carlos Ostermann obteve a aprovação unânime da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul.



Ao comemorar os 80 anos de Mario Quintana, em 1986, a Editora Globo lança a coletânea 80 Anos de Poesia. Três anos depois, ele é eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, pela Academia Nilopolitana de Letras, Centro de Memórias e Dados de Nilópolis e pelo jornal carioca A Voz. Em 1992, A Rua dos Cataventos tem uma edição comemorativa aos 50 anos de sua primeira publicação, patrocinada pela Ufrgs. E, mesmo com toda a proverbial timidez, as homenagens ao poeta não cessam até e depois de sua morte, aos 88 anos, em 5 de maio de 1994.

domingo, 31 de maio de 2009

Quintino Cunha - Breve Biografia

Quintino Cunha
(Poeta e Escritor)


José Quintino da Cunha, o Quintino Cunha (1875/1943), se tornou uma figura lendária no Ceará. Não há quem não tenha ouvido falar nesse notável poeta. Na verdade, menos pelas suas belas poesias do que pela fama de repentista emérito. No entanto, Quintino foi um dos vultos mais importantes da literatura cearense, além de poeta era contista e orador.

Nasceu na antiga vila de São Francisco de Uruburetama, atual cidade de Itapagé, no dia 24 de julho de 1875. Seu pai, João Quintino da Cunha, era professor e jornalista e sua mãe, D. Maria Maximina Ferreira Gomes da Cunha, era professora e solista da igreja. Quintino quase seguia a carreira militar, chegou a se matricular na Escola Militar do Ceará, mas logo abandonou a idéia e a escola.

Sempre inquieto, resolveu deixar a sua cidade natal e foi parar na Amazônia. Lá, como provisionado, advogou durante cinco anos. Depois foi para a Europa, onde publicou o seu primeiro livro, Pelo Solimões. Conviveu e fez amizade com diversos escritores estrangeiros. Logo porém, voltou ao Ceará e matriculou-se na Faculdade de Direito. Concluiu o curso em 1909.

Advogou no foro criminal, tornando-se célebre pela sua incomparável oratória. Tal qualidade era muito requisitada em comícios e festividades. No entanto, Quintino se tornou realmente famoso pela sua faceta de boêmio e, principalmente, pelas suas tiradas de espírito, repentes que faziam o deleite dos amigos e causava inveja aos gratuitos inimigos.

Viveu sempre em dificuldades financeiras, não só pelo fato da sua família ser numerosa como pelos seus sucessivos casamentos e os conseqüentes encargos familiares. Apesar disso, chegou a ser deputado estadual (1913/1914) e pertenceu à Academia Cearense de Letras. Faleceu em Fortaleza, com sessenta e oito anos, no dia primeiro de junho de 1943

sábado, 30 de maio de 2009

Antônio Bezerra

Antônio Bezerra de Meneses (Quixeramobim, Ceará, 21 de fevereiro de 1841 — Fortaleza, 28 de agosto de 1921) foi um naturalista, historiógrafo e poeta brasileiro

Biografia

Filho do doutor Manoel Soares da Silva Bezerra e de Maria Teresa de Albuquerque Bezerra.

Na juventude, foi sua produção poetica foi muito popular no Ceará, especialmente depois da publicação de Sonhos de Moço (1872) e das Três Liras (1883), juntamente com Justiniano de Serpa e Antônio Martins. Participou ativamente da campanha abolicionista no Ceará.

Foi, porém, na historiografia que desempenhou papel mais importante, escrevendo obras que até hoje são referências para a compreensão do história do Ceará no período em que viveu. Colaborou com diversos jornais da capital, dentre eles O Ceará e o Libertador, tendo sido um dos fundadores de ambos. Foi também fundador do Instituto do Ceará. É patrono da 4ª (quarta) cadeira da Academia Cearense de Letras.

Antônio Sales - Biografia - 1868-1940

Mais conhecido pelo seu romance regionalista Aves de Arribação, de 1914, Antônio Sales foi também historiador literário, poeta e idealizou e projetou, nacionalmente, a Padaria Espiritual, da qual era o seu padeiro-mor.

Somente a Padaria Espiritual (1892-1898) daria um capítulo à parte e de relevo na biografia de Antônio Sales, pois foi tal agremiação, com o seu jornal/revista O Pão (que morreu de "cachexia pecuniária"; para não fugir à regra, ontem, hoje, amanhã) um dos empreendimentos mais originais do Ceará ou do inteiro Brasil. Luciano Maia edita hoje um jornal literário com o mesmo título.

O poeta Antônio Sales está naquela encruzilhada problemática, estética e socialmente, que marcou o fim de um século e o começo do outro, ou seja, no Brasil, na metrópole e na província, o Romantismo ainda modelava um Parnasianismo algo original: o soneto imperava como forma eletiva, mas era o sentimento romântico que preponderava por sobre um tipo de poema que a Escola de Bilac repudiava.

Entre os poetas da época, de feição romântico-parnasiana, como Alfredo Castro, Cruz Filho, Júlio Maciel, Carlos Gondim, Otacílio de Azevedo, é curioso notar que alguns estudiosos, comumente, estavam colocando alguns deste poetas na trilha do Pré-Modernismo, como é o caso de Cruz Filho e Américo Facó, na indicação de Fernando Góes.

O certo é que a amostragem de sua poesia é o melhor caminho para o leitor aquilitar de suas reais tendências, ou não precisará disso para apreciar alguns momentos de beleza e emotividade, como no caso está o poeta Antônio Sales, que publicou a sua primeira coletânea, Versos Diversos, em 1890, e Trovas do Norte, de 1895. Poesias, de 1902, reúne poemas dos livros anteriores, com algumas modificações. Minha Terra, considerado a sua obra-prima, é de 1919. A Obra poética de Antônio Sales foi reunida em 1968, com o título referido.

Antônio Sales nasceu em Parazinho, município de Paracuru, no dia 13 de junho de 1868. Estudou as primeiras letras na terra natal e na cidade de Soure (Caucaia), mas teve que parar, para enfrentar a dura vida do comércio, em Fortaleza, quando apenas tinha 14 anos de idade. Pai cego, família pobre, o poeta passou oito anos nesse trabalho, mas em 1888 conseguiu a nomeação para um cargo da Intendência de Socorros Públicos de Fortaleza.

Entrando para a política, alcançou importantes cargos, ao lado de sua atividade jornalística e literária, o que deu na Padaria Espiritual. Irrequieto, insatisfeito, Antônio Sales parte para o Rio de janeiro (1897) e vai trabalhar no Tesouro Nacional e no Correio da Manhã, recém-fundado. Participou de rodas intelectuais no Rio e chegou a conviver com os fundadores da Academia Brasileira de Letras, mas não quis candidatar-se a uma cadeira.

Em 1920 está de volta ao Ceará, onde chega bafejado pelo sucesso do lançamento de Minha Terra. Dois anos depois contribui para a reorganização da Academia Cearense de Letras. Morava em Jacarecanga, em casa modesta, onde morre no dia 14 de novembro de 1940.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Leonardo Mota

Leonardo Mota (Pedra Branca, Ceará, 10 de maio de 1891 - 2 de janeiro de 1948) foi um escritor, professor, advogado, promotor de justiça, secretário de governo, tabelião, jornalista e historiador. Formou-se em direito pela Faculdade de Direito do Ceará no ano de 1916.

Muito cedo mudou-se de sua terra natal junto com sua família. O interesse de Leonardo Mota pelo sabedoria sertaneja teve início quando foi morar na cidade de Ipu, Ceará, onde a convite de seu irmão Cônego Aureliano Mota, dirigiu um Instituto Educacional.

Membro da Academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará, Leota (era assim que gostava de ser chamado), "cresci nas banhas e encurtei no nome." Era um nome requisitado para proferir palestras para platéias de estudiosos e interessados folcloristas. Era também um animador de rodas de amigos e intelectuais da antiga praça do Ferreira (coração da cidade de Fortaleza), para essa platéia declamava versos e contava histórias e pequenas anedotas.

"Fui um intransigente na defesa do sertão esquecido, do sertão caluniado e só lembrado quando dele se quer o imposto nos tempos de paz ou o soldado nos tempos de guerra. E fui sobretudo, contra o labéu de cretinice do sertanejo nordestino que orientei a minha documentada contradita: em todo o meu "Cantadores" e nas conferências que proferi, de Norte a Sul, pus o melhor dos meus empenhos em fazer ressaltar a acuidade, a destreza de esperíto, a vivacidade da desaproveitada inteligência sertaneja, de que os menestréis plebeus são a expressão bizarra e esquecida, apesar de digna de estudos."

O "último boêmio do Ceará" ou "judeu errante do folclore nacional", como se intitulava, publicou: "Cantadores" (1921), "Violeiros do Norte" (1925), "Sertão Alegre" (1928), "No Tempo de Lampião" (1930), "Prosa Vadia" (1932) e "Padaria Espiritual" (1938). "Adagiário Brasileiro" foram reconstituídos pacientemente por seu filhos Moacir e Orlando Mota e publicados anos depois.

Em sua terra natal Pedra Branca, existe uma biblioteca em sua homenagem e um monumento na praça que também leva seu nome, em frente ao local onde existiu a casa onde o "Princípe dos folcloristas brasileiros" nasceu um dia. No dia 20 de fevereiro de 1952, por iniciativa do Intituto do Ceará, foi batizada de com o nome do escrito uma rua de Fortaleza.

Brecht – (1898-1956). Por Edmundo Moniz

Brecht é uma época. Uma época tumultuosa de rebeldia e de protesto. Refletem-se, em suas obras, os problemas fundamentais do mundo atual: a luta pela emancipação social da humanidade. Brecht tem plena consciência do que pretende fazer. Usa o materialismo dialético da maneira mais sábia para a revolução estética que se dispôs a promover na poesia e no teatro.

O teatro épico e didático caracteriza-se, em Brecht, pelo cunho narrativo e descritivo cujo tema é apresentar os acontecimentos sociais em seu processo dialético: Diverte e faz pensar. Não se limita a explicar o mundo, pois se dispõe a modificá-lo. É um teatro que atua, ao mesmo tempo, como ciência e como arte.

A alienação do homem, para Brecht, não se manifesta como produto da intuição artística. Brecht ocupa-se dela de maneira consciente e proposital. Mas não basta compreendê-la e focalizá-la. O essencial não é a alienação em si, mas o esforço histórico para a desalienação do homem.

O papel do autor dramático não se reduz a reproduzir, em sua obra, a sociedade de seu tempo. O principal objetivo, quer pelo conteúdo, quer pela forma, é exercer uma função transformadora, que atue revolucionariamente sobre o 'ambiente social.

GALILEU

Brecht, que passou pelo expressionismo, não ancorou o seu barco em nenhum dos portos das escolas literárias. Apesar de ligado ao Partido Comunista, não se subordinou ao realismo socialista. Ao contrário, opôs-se a ele com ardente tenacidade. Daí a repulsa das autoridades soviéticas pelas suas peças teatrais que foram proibidas de serem representadas na Rússia de Stalin.

Muito embora Brecht não se tivesse pronunciado abertamente contra os processos de Moscou, em virtude da pressão que sofreu, no ocidente, sob o pretexto de que o combate a Stalin significava o fortalecimento de Hitler e do nazismo, foi com profundo horror que ele acompanhou os trágicos acontecimentos que levaram os principais dirigentes da revolução russa, companheiros de Lênin, a confessar, antes de serem fuzilados, uma série de crimes hediondos que jamais cometeram.

Foram estas falsas confissões, segundo Isaac Deutscher, que levaram Brecht a escrever Galileu Galilei, talvez a mais importante de suas obras dramáticas. Há muito de Kamenev, de Zinoviev e de Bukharin no genial astrônomo que, vítima da Inquisição, atirado no cárcere, diante dos instrumentos de tortura, se viu na contingência de renegar as próprias idéias.

A incompatibilidade de Brecht com o regime stalinista era tão aguda que, ao exilar-se da Alemanha de Hitler, preferiu asilar-se nos Estados Unidos, onde se sentiu mais seguro.

BRECHT E SHAKESPEARE

É muito comum comparar-se Brecht a Shakespeare. O motivo da associação entre um e outro é o paralelismo histórico dos períodos em que eles viveram. Shakespeare surgiu no Renascimento, na decadência do regime feudal, e alvorecer da burguesia, Brecht apareceu na fase crepuscular da burguesia, em plena ascensão do movimento operário. Ambos viveram em períodos congêneres de transição social.

Em certos aspectos, Brecht é uma chave para Shakespeare. Shakespeare, em quase todas as suas obras, passava da poesia para a prosa e da prosa para a poesia. Acreditavam os estudiosos de sua obra que a razão desta simultaneidade estava na premência do tempo. Shakespeare não chegava a pôr em versos, do começo ao fim, a peça que escrevia porque tinha de aprontá-la o mais rápido possível, dentro de prazos marcados, para levá-la ao palco. A pressa o impedia de dar o arremate final. Deixava sempre para completá-la mais tarde, quando dispusesse de tempo. A forma definitiva ficava adiada para um futuro incerto. Nunca, porém, chegou a hora de executar o que pretendera.

Este modo de ver exige uma revisão. Brecht empregava também, simultaneamente, em suas peças teatrais, a prosa e a poesia sem que estivesse disposto a dar-lhes, no futuro, uma forma diferente, pondo-as todas em versos.

O erro de julgamento quanto ao uso do verso e da prosa por Shakespeare, em sua obra dramática, está na velha tendência de compará-lo a Corneille, Racine e Molière, que não misturavam a prosa com a poesia. Shakespeare, mais espontâneo do que os clássicos franceses, mais plástico, mais livre, não se apegava, como aqueles, à pureza da forma. Passava do verso para a prosa quando julgava que certas idéias ficariam melhor expressas em prosa do que em versos. De grande importância, para ele, era o efeito no palco, o lado puramente teatral que deveriam estar acima da métrica e da estilística. Não havia necessidade de manter-se só a prosa ou só a poesia. Preferia jogar com uma e com outra como julgasse mais adequado. Esta independência tornava mais fácil o jogo das palavras e dos diálogos. Não prejudicava a estrutura da obra dramática. Só contribuía para valorizá-la. Brecht chegou às mesmas conclusões de Shakespeare quatro séculos depois. E da maneira tão indicada, tão aceitável e tão proveitosa.

ARTE E CIÊNCIA

As realizações práticas, de Brecht, nó teatro, foram acompanhadas de suas conclusões no terreno da estética: Não se tratava de tentativas empíricas, mas da aplicação de uma teoria que considerava científica. Daí seus estudos sobre uma arte dramática não aristotélica, sem submissão ou obediência às regras secularmente estabelecidas.

Brecht colocou-se à margem de todo o esquematismo das escolas literárias: Aceitando a concepção de Hegel de que há nos fenômenos artísticos uma realidade superior a uma existência mais verdadeira em comparação com a realidade habitual, chegou a Marx com a extraordinária independência de seu gênio poético e teatral. Como Shakespeare, ele soube usar, na época atual, o heróico e o lírico, o dramático e o cômico, o grave e o ridículo, dando à sua obra um sentido universal.

Brecht confessa que, embora a arte e a ciência atuem de modos diferentes, não lhe era possível subsistir como artista sem servir-se da ciência. "Do que necessitamos de fato - escreve Brecht - é de uma arte que domine a natureza, necessitamos de uma realidade moldada pela arte e de uma arte natural". Acrescenta: "Não nos podemos esquecer de que somos filhos de uma era científica". Insiste: "A ciência e a arte têm, de comum, o fato de que ambas existem para simplificar a vida do homem: uma, ocupada com sua subsistência material e a outra, em proporcionar-lhe uma agradável diversão". E conclui: "Tal como a transformação da natureza, a transformação da sociedade é um ato de libertação. Cabe ao teatro de uma época científica transmitir o júbilo desta libertação".

Quando Brecht liga a arte à ciência procura justificar o seu papel atuante nas letras sociais e políticas do mundo atual. O teatro de Brecht é eminentemente político. Não de forma indireta, mas aberta e declaradamente. Pode-se dizer: um teatro a serviço da causa operária, da revolução social. Daí o seu caráter épico e didático.

NAZISMO E EXÍLIO

Em 1933, quando Adolfo Hitler, à frente do Terceiro Reich, estabeleceu o nazismo na Alemanha, inaugurando uma nova ordem que, segundo ele, deveria durar dez mil anos, Bertolt Brecht, com trinta e cinco anos de idade, abandonou o país, asilando-se em várias cidades da Europa. Suas obras, em Berlim, foram queimadas em praça pública com tantas outras dos mais famosos escritores da época. No dia em que a Alemanha invadiu a Dinamarca, Brecht, que se encontrava neste país, fugiu para a Finlândia. Dali partiu para Vladivostok, de onde embarcou para os Estados Unidos. No exílio, que durou até o fim da Segunda Guerra Mundial, publicou vários poemas que contribuem para sua glória literária tanto como suas peças teatrais. Brecht não se cansou de fustigar violentamente a figura de Hitler, mostrando os crimes do nazismo. De volta à Alemanha, depois do desmoronamento deste regime, continuou a lutar, como marxista, pela causa operária. Ao morrer, em 1956, o mundo inteiro reconhecia a grandeza de sua obra.

O OBJETIVO DA POESIA MODERNA

Brecht tem, sobre a poesia, o mesmo pensamento que tem sobre a arte dramática. Maneja-a da maneira mais sábia em defesa da liberdade do homem. Há, em seus poemas, o mesmo sentido épico e didático de suas peças teatrais. Recusa-se a aceitar uma poesia alheia aos acontecimentos sociais. Exige que ela seja atuante sem perder, entretanto, o seu sentido artístico. A poesia moderna deve estar ao lado da revolução.

O êxito excepcional do teatro e da poesia de Brecht confirma a justeza de seus pontos-de-vista. Sua arte é duplamente revolucionária: no fundo e na forma. Não só se opõe à estética de Aristóteles como não se submete ao convencionalismo e aos preconceitos sociais. Escreve independentemente, como acha que se deve escrever.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Raimundo Fagner Cândido Lopes - Pequena Biografia

Inquieto, irreverente, imprevisível...

Podemos dizer que este é Raimundo Fagner Cândido Lopes. Cantor, compositor, instrumentista, ator, produtor. Cearense de Orós, Fagner nasceu em 13.10.1949. Caçula de cinco irmãos, filho de José Fares e Dona Francisca. Desde pequeno o menino Raimundo se interessava por música. Num concurso para cantores infantis em homenagem ao dia das mães, promovido pela Rádio Iracema de Fortaleza, Fagner tira o primeiro lugar, quando tinha apenas cinco anos. Mantê-lo longe do rádio a partir de então se tornou algo praticamente impossível. Em 1968, quando já tinha diversas músicas compostas, Fagner venceu o IV Festival de Música Popular do Ceará com Nada Sou, composição em parceria com Marcus Francisco. Em conjunto com Belchior, Rodger Rogério, Ednardo e Ricardo Bezerra, formou o que se chamou de Pessoal do Ceará. Em 1971, ingressou na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília, cidade onde morava uma de suas irmãs. Logo no primeiro ano desiste do curso, mas consegue facilmente a sua identidade: em 1971 inscreveu três músicas no Festival de Música Popular do Centro de Estudos Universitários de Brasília, obtendo o sexto lugar com Manera Frufru Manera (parceria comRicardo Bezerra), menção honrosa e prêmio de melhor intérprete com Cavalo Ferro (também parceria com Ricardo Bezerra) e o primeiro lugar com Mucuripe (parceria com Belchior).
A partir de então, Fagner consegue despertar a atenção da imprensa do sudeste, sendo suas canções exaustivamente executadas nos bares da capital do país.

Que venha o sucesso

Fagner se muda para o Rio de Janeiro ainda em 1971. No ano seguinte, Mucuripe é gravada por Elis Regina e estoura nas paradas de sucesso do país. No mesmo ano, ele grava a composição num dos lados do segundo compacto simples da série Disco de Bolso, iniciativa do Pasquim; no outro lado do compacto, está Caetano Veloso com A Volta da Asa Branca.
A música Cavalo Ferro é gravada em 1973 no disco Meu Corpo, Minha Embalagem, Tudo Gasto na Viagem, do Pessoal do Ceará, composto de Ednardo, Rodger Rogério, Teti e Cirino.
É em 1973 que Fagner grava o seu primeiro LP, MANERA FRUFRU MANERA, pela Philips. Nele está um dos seus maiores sucessos, a música Canteiros, poema de Cecília Meirelles musicado por Fagner. A música causou polêmica, vez que no disco não havia créditos para a poetisa, constando a autoria apenas de Raimundo Fagner. Após longa batalha na justiça, a família de Cecília Meirelles conseguiu retirar de circulação o disco. Canteiros tem como música incidental Hora do Almoço, de autoria de Belchior, e Águas de Março.
O compositor Fagner já demonstrava desde o primeiro disco a sua versatilidade, conseguindo reunir numa mesma composiçãoBelchior e Tom Jobim, de maneira homogênea, harmônica com o restante do disco. Nara Leão, Bruce Henry e Naná Vasconcelos aparecem no disco com participações especiais.
No piano, a maestria de Ivan Lins. A partir daí, a carreira levanta vôo definitivo. Convidado para compor parte da trilha sonora do filme Joana, A Francesa, de Carlos Diegues, Fagner agrada tanto que logo em seguida é convidado para ir à França a fim de trabalhar com o músico Pierre Barroux e com Naná Vasconcelos. Ele não hesita e abre mão inclusive do contrato com a Philips. A viagem faz com que conheça Pedro Soler e Pepe de La Matrona. Na volta para o Brasil, após algumas dificuldades, Fagner lança o AVE NOTURNA, pela Continental, onde predominam músicas de caráter pessimista. É o ano de 1975. A música FRACASSOS é uma das composições definitivas do LP e virá a ser gravada mais tarde por Cauby Peixoto, em parceria com o próprio Fagner. Outro destaque é uma versão um tanto triste de Riacho do Navio. Nela Fagner consegue mostrar o seu jeito próprio de cantar.
Em 1976, lança o Raimundo Fagner, agora pela gravadora CBS. Neste disco, vê-se momentos de puro rock (ABC), romantismo da melhor qualidade (Conflito, Asa Partida), além de música nordestina (Matinada).
Surpreende a gravação de Sinal Fechado, autoria de Paulinho da Viola. Com um estilo próprio, Fagner dá uma versão nova para uma música que já tinha sido gravada por alguns dos grandes nomes da MPB.
No ano seguinte surge o ORÓS, disco imprevisível, inusitado. Com a produção e arranjo de Hermeto Paschoal, nele pode-se encontrar músicas que dificilmente seriam tocadas na mídia. Apenas Cebola Cortada chega a ser executada nas rádios do país. Músicas como Epigrama n.9, Romanza e Orós, dificilmente cairiam no gosto do imediatismo das rádios.
Em 1978 Fagner lança o Quem Viver Chorará, dedicado por Fagner a Seu Fares e Dona Francisca, “com todo amor que tenho e terei”. É a partir deste disco que ele estoura de vez o mercado fonográfico.
Revelação, composição Clodo e Clésio é tocada exaustivamente nas rádios. Destacam-se também no disco a recriação para As Rosas Não Falam, além de Motivo, Jura Secreta e a participação de Alceu Valença em Punhal de Prata.

Vanguarda ou à frente de seu tempo ?

É por esta época que Fagner teve a oportunidade de criar e dirigir um projeto de grande importância para a MPB: o selo Epic, da CBS, destinado a lançar novos valores. É por este selo que foram lançados Amelinha, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Robertinho de Recife, além de artistas como Petrucio Maia, Manassés, entre outros. É também pelo EPIC que é lançado o disco SORO, um encontro de poetas, músicos, compositores, cantores. Fagner consegue reunir num mesmo disco, entre solos instrumentais, declamações e interpretações, nomes a exemplo de Patativa do Assaré, Ferreira Gullar, Geraldo Azevedo, Fausto Nilo, Belchior, Nonato Luiz, Cirino, entre outros.

A crítica se rende. Já não era sem tempo !

Beleza é o título do disco de 1979. A música Noturno foi a abertura sonora da novela Coração Alado da tv Globo. No show para o lançamento do disco no Teatro João Caetano, no Rio, a paixão do público pelo artista se torna evidente no desvairado delírio de aplausos, assobios e frases apaixonadas.
Em 1980, é lançado o disco Raimundo Fagner que contém preciosidades, a exemplo da canção Vaca Estrela e Boi Fubá de Patativa do Assaré. No mesmo LP, músicas como Oh! My Love, música de John Lennon - morto naquele ano - e Yoko Onno, Canção Brasileira, Morena Penha, mostram a versatilidade que sempre foi uma das marcas da carreira de Fagner. A música Eternas Ondas é o grande hit do disco.
O disco de 1981 é o Traduzir-se, lançado no Brasil e na Espanha, com participações de Mercedes Sosa (na gravação definitiva de Años de Pablo Milanés), Manzanita, Joan Manuel Serrat e Camaron de La Isla. Um grande disco. Uma das músicas executadas nas rádios foi Fanatismo, música de Fagner sobre poema de Florbela Espanca. A parceria com Florbela Espanca estaria presente no disco seguinte, com as músicas FUMO e TORTURA.
O disco, de nome Fagner, foi gravado no Hit Factory, mesmo estúdio em que John Lennon gravou o seu último disco (Dolbly Fantasy). Neste momento já choviam críticas ao excesso de autoconfiança presente no homem Fagner. Críticas e até divisões a seu respeito fazem surgir confusões entre músico e pessoa: alguns os reuniam num único ser megalomaníaco e antipático e outros procuravam separar o homem do artista, tentando opinar mais sobre o último. É neste clima que a crítica especializada considera os arranjos do disco, a cargo de Licoln Olivetti, muito sofisticados. Vê-se desde então um certo desprezo da crítica pela obra do cantor: ora desejam um trabalho mais popular e quando o artista faz um trabalho deste tipo pregam um trabalho mais sofisticado. Por trás disto tudo, parece se esconder uma profunda antipatia ao homem Fagner.
O disco possui preciosidades: Qualquer Música é tocada nas rádios, música que tem uma música incidental de nome Fagmania, ondeFagner coloca alguns vocais típicos de seu estilo. Outro destaque é Orós II, de João do Vale, pérola da música nordestina dedicada ao próprio Fagner. A música Pensamento, letra e música de Fagner, é tema da novela Final Feliz da Rede Globo.
O disco Palavra de Amor em 1983 é composto de músicas calmas, românticas. Destacam-se Guerreiro Menino (de Gonzaguinha), Palavra de Amor, Acalanto e Paixão e Prelúdio Para Ninar Gente Grande, clássico de Luiz Vieira. No disco há a participação de Chico Buarque (Contigo) e do Roupa Nova (Palavra deAmor).
O disco A Mesma Pessoa, de 1984, não chega a acontecer conforme o previsto. Apenas a música Cartaz é tocada nas rádios do país.O disco é gravado na Inglaterra e contém belas canções como as músicas Me Leve (poema de Ferreira Gullar musicado por Fagner), Só Você e Um Grande Amor (ambas de Vinícius Cantuária).
No mesmo ano é lançado o disco Luiz Gonzaga e Fagner, pela RCA/VICTOR. Os dois cantam clássicos nordestinos a exemplo de Boiadeiro, Súplica Cearense, O Cheiro de Carolina, Xote das Meninas, entre outras. O disco seguinte chamado Fagner é o último do artista pela CBS, lançado em 1985. Com arranjos de Licoln Olivetti, Wagner Tiso e Reinaldo Arias, o disco é um dos mais bem cuidados. Contém música nordestina (Dono dos Teus Olhos de Humberto Teixeira), romantismo (Sobre a Terra, Tranqüilamente), rock popular (Deixa Viver, Contra-mão - parceria com Belchior -, Bola No Pé, esta última lembrando os Loucos Suingues Tropicais gravada no disco de Robertinho de Recife). O disco tem participações de Chico Buarque (Paroara), Cazuza (Contra-mão) e Beth Carvalho (Te Esperei). As músicas Paroara e Te Esperei podem ser consideradas pérolas da MPB. Destaque ainda no disco para Semente, mais uma música de Fagner sobre um poema, desta vez o poeta é o Mário de Andrade.
A estréia na RCA se dá com o disco também batizado por FAGNER, de 1986. Nas rádios é tocada a música Dona Da Minha Cabeça, de Geraldo Azevedo e Fausto Nilo. Fagner volta a musicar poemas: Afonso Romanno de Sant’anna, em Os Amantes, música de um romantismo bem cuidado e Ferreira Gullar (Rainha da Vida). Destaque para a participação de Gonzaguinha na música Forró do Gonzagão e para as novas versões de Sabiá (Luiz Gonzaga e Zé Dantas) e Como é Grande o Meu Amor Por Você (Roberto Carlos). Há também uma inesperada participação de Isaac Karabtchevisky regendo orquestra em Cantigas, canção de Alberto Nepomuceno e musicada por D.Branca Colaço.
O segundo disco na RCA é o Romance no Deserto, disco de um romantismo mais próximo do popular (o que fez os críticos desejarem a mesma sofisticação antes rejeitada). Além da canção-título (versão de Romance en Durango de Boby Dylan), destacam-se À Sombra de Um Vulcão, Ansiedade e Você Endoideceu Meu Coração. A música Deslizes, de autoria de Michael Sullivan e Paulo Massadas, é tocada exaustivamente em todo o país. Primeiro lugar em todas as paradas de sucesso, a música leva Fagner a uma superexposição na mídia em todo o país. Em seus shows vê-se o delírio, principalmente por parte do público feminino. Ainda em 1987 Fagner participa como ator na minissérie A Rainha da Vida, exibida pela Rede Manchete de Televisão. Na novela Fagner vive um padre em conflito entre o celibato e a volta para um antigo amor. O Padre tem também funções um tanto revolucionárias. Na trilha sonora aparecem Rainha da Vida, Preguiça, Á Sombra de Um Vulcão, além de músicas de Chico Buarque e Milton Nascimento.
Em 1988 aparece o segundo LP feito em parceria com Luiz Gonzaga. Neste, o produtor Fagner procura destacar o lado compositor de Luiz Gonzaga. Constam clássicos como Xamego, Abc do Sertão, Vem Morena e pelo menos duas gravações definitivas: Estrada do Canindé e Amanhã eu Vou. O disco tem participação e co-produção de Gonzaguinha.
Em 1989 é lançado o disco O QUINZE, que serviria de título para um filme homônimo, baseado no romance de Rachel de Queiroz. O disco é o décimo quinto da carreira de Fagner. Destacam-se nas rádios Amor Escondido, Retrovisor, Cidade Nua e Oração de São Francisco. O disco tem a característica de possuir em quase todas as faixas apenas os arranjos em computador de Licoln Olivetti. As participações especiais ficam por conta de Chico Buarque (Joana Francesa, pela segunda vez gravada pelos dois) e Michael Sullivan (numa música inspirada no livro A Doce Canção de Caetana, de autoria de Nélida Piñon).
Em 1991 o versátil Pedras Que Cantam. Fagner mostra a diversidade de sua obra ao gravar músicas tipicamente nordestinas (Pedras Que Cantam, Saudade), boleros (Borbulhas de Amor), além de música sertaneja (Cabecinha no Ombro). A música Pedras Que Cantam é a abertura da novela Pedra Sobre Pedra da Rede globo. Borbulhas de Amor é o grande hit do LP. Destacam-se as participações de Roberta Miranda (Cabecinha no Ombro) e do Roupa Nova (Rio Deserto).
O próximo disco é o Demais, onde Fagner acompanhado de Roberto Menescal regrava clássicos do samba-canção, lançado em 1993. São canções já regravadas à exaustão por diversos artistas, com o agora traço pessoal de Fagner. As interpretações de Ronda e Folha Morta são das mais bonitas até hoje realizadas. Apenas Eu sei Que Vou Te Amar e Brigas são de alguma forma tocadas nas rádios. A parceria com Roberto Menescal rende um disco lançado no Japão, gravado ao vivo durante a despedida de Zico.Com acompanhamento de apenas violões e - em algum momento uma percussão - Fagner visita o início de sua carreira (Canteiros, Último Pau de Arara e Penas do Tiê), passa por grandes sucessos (Revelação, Deslizes, Borbulhas de Amor, As Rosas Não Falam, Guerreiro Menino) e canta músicas do último disco (Eu Sei Que Vou Te Amar, Manhã de Carnaval). O show termina com um inusitado bis para Asa Branca.
O irreverente cantor muda completamente de estilo em Caboclo Sonhador, de 1994. O disco é uma volta às raízes nordestinas, onde destacam-se Lembrança de Um Beijo, Caboclo Sonhador, Minha Vidinha e Cavaleiro da Noite. O disco é um grande sucesso, nem sempre presente na mídia, mas de grande aceitação popular.
É a incursão de Fagner na música nordestina, onde sempre esteve bastante à vontade. Em 1995 surge o Retrato. Disco bem cuidado, marca a volta de Fagner aos seus compositores mais tradicionais, a exemplo de Fausto Nilo, Petrucio Maia, Clodo, Nonato Luiz, entre outros. Infelizmente o disco não tem grande repercussão, apesar de considerado pelos fãs um dos melhores dos últimos anos. Nas rádios, apenas O Amor Riu de Mim, de Altay Veloso. Destaques interessantes são POEIRA, ACORDA, SORRI e TOQUE A MADEIRA.
Neste ano de 1996, Fagner lançou já dois discos. O primeiro é na verdade uma coletânea de músicas típicas nordestinas gravadas por ele na BMG-ARIOLA/RCA, incluindo apenas uma música inédita:Bateu Saudade, forró de letra sofisticada. O disco do ano é o romântico Raimundo Fagner. Não há paralelo entre este e nenhum outro lançado por ele. Os arranjos lembram Nat King Cole em alguns momentos. O repertório é extremamente bem cuidado e inclui pérolas a exemplo de Mucuripe, Pra Quem Não Tem Amor, Letras Negras e Um Vestido e Um Amor. A música Pecado Verde já começa a ser tocada nas rádios do país inteiro.

Mais sobre Fagner: http://www.fagner.com.br/

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Carl Gustav Jung e sua obra.

Carl Gustav Jung nasceu a 26 de julho de 1875, em Kresswil, Basiléia, na Suíça, no seio de uma família voltada para a religião. Seu pai e vários outros parentes eram pastores luteranos, o que explica, em parte, desde a mais tenra idade, o interesse do jovem Carl por filosofia e questões espirituais e o pelo papel da religião no processo de maturação psíquica das pessoas, povos e civilizações. Criança bastante sensível e introspectiva, desde cedo o futuro colega de Freud demonstrou uma inteligência e uma sagacidade intelectuais notáves, o que, mesmo assim, não lhe poupou alguns dissabores, como um lar algumas vezes um pouco desestruturado e a inveja dos colegas e a solidão.

Ao entrar para a universidade, Jung havia decidido estudar Medicina, na tentativa de manter um compromisso entre seus interesses por ciências naturais e humanas. Ele queria, de alguma forma, vivenciar na prática os ideais que adotava usando os meios dados pela ciência. Por essa época, também, passou a se interessar mais intensamente pelos fenômenos psíquicos e investigou várias mensagens hipoteticamente recebidas por uma médium local (na verdade, uma prima sua), o que acabou sendo o material de sua tese de graduação, "Psicologia e Patologia dos Assim Chamados Fênomenos Psíquicos".

Em 1900, Jung tornou-se interno na Clínica Psiquiátrica Bugholzli, em Zurique, onde estudou com Pierre Janet, em 1902, e onde, em 1904, montou um laboratório experimental em que criou seu célebre teste de associação de palavras para o diagnóstico psiquiátrico. Neste, uma pessoa é convidada a responder a uma lista padronizada de palavras-estímulo; qualquer demora irregular no tempo médio de resposta ou excitação entre o estímulo e a resposta é muito provavelmente um indicador de tensão emocional relacionada, de alguma forma, com o sentido da palavra-estímulo. Mas tarde este teste foi aperfeiçoado e adaptado por inúmeros psiquiatras e psicólogos, para envolver, além de palavras, imagens, sons, objetos e desenhos. É este o princípio básico usado no detector de mentiras, utilizado pela polícia científica. Estes estudos lhe granjearam alguma reputação, o que o levou, em 1905, aos trinta anos, a assumir a cátedra de professor de psiquiatria na Universidade de Zurique.

Neste ínterim, Jung entra em contato com as obras de Sigmund Freud (1856-1939), e, mesmo conhecendo as fortes críticas que a então incipiente Psicanálise sofria por parte dos meio médicos e acadêmicos na ocasião, ele fez questão de defender as descobertas do mestre vienense, convencido que estava da importância e do avanço dos trabalhos de Freud. Estava tão enstusiasmado com as novas perspectivas abertas pela psicanálise, que decidiu conhecer Freud pessoalmente. O primeiro encontro entre eles transformou-se numa conversa que durou treze horas ininterruptas. A comunhão de idéias e objetivos era tamanha, que eles passaram a se corresponder semanalmente, e Freud chegou a declarar Jung seu mais próximo colaborador e herdeiro lógico, e isso é algo que tem de ser bem frisado, a mútua admiração entre estes dois homens, frequentemente esquecida tanto por freudianos como por junguianos. Porém, tamanha identidade de pensamentos e amizade não conseguia esconder algumas diferenças fundamentais, e nem os confrontos entre os fortes gênios de um e de outro. Jung jamais conseguiu aceitar a insistência de Freud de que as causas dos conflitos psíquicos sempre envolveriam algum trauma de natureza sexual, e Freud não admitia o interesse de Jung pelos fenômenos espirituais como fontes válidas de estudo em si. O rompimento entre eles foi inevitável, ainda que Jung o tenha, de certa forma, precipitado. Ele iria acontecer mais cedo ou mais tarde. O rompimento foi doloroso para ambos. O rompimento turbulento do trabalho mútuo e da amizade acabou por abrir uma profunda mágoa mútua, nunca inteiramente assimilada pelos dois principais gênios da Psicologia do século XX e que ainda, infelizmente, divide partidários de ambos os teóricos.

Aterior mesmo ao período em que estavam juntos, Jung começou a desenvolver uma sistema teórico que chamou, originalmente, de "Psicologia dos Complexos", mais tarde chamando-a de "Psicologia Analítica", como resultado direto de seu contato prático com seus pacientes. O conceito de inconsciente já está bem sedimentado na sólida base psiquiátrica de Jung antes de seu contato pessoal com Freud, mas foi com Freud, real formulador do conceito em termos clínicos, que Jung pôde se basear para aprofundar seus próprios estudos. O contato entre os dois homens foi extremamente rico para ambos, durante o período de parceria entre eles. Aliás, foi Jung quem cunhou o termo e a noção básica de "complexo", que foi adotado por Freud. Por complexo, Jung entendia os vários "grupos de conteúdos psíquicos que, desvinculando-se da consciência, passam para o inconsciente, onde continuam, numa existência relativamente autônoma, a influir osbre a conduta" (G. Zunini). E, embora possa ser frequentemente negativa, essa influência também pode assumir caracterísiticas positivas, quando se torna o estímulo para novas possibilidades criativas.

Jung já havia usado a noção de complexo desde 1904, na diagnose das associações de palavras. A variância no tempo de reação entre palavras demonstrou que as atitudes do sujeito diante de certas palavras-estímulo, quer respondendo de forma exitante, quer de forma apressada, era diferente do tempo de reação de outras palvras que pareciam ter estimulação neutra. As reações não convencionais poderiam indicar (e indicavam de fato) a presença de complexos, dos quais o sujeito não tinha consciência.

Utilizando-se desta técnica e do estudo dos sonhos e de desenhos, Jung passou a se dedicar profundamente aos meios pelos quais se expressa o inconsciente. Os sonhos pessoais de seus pacientes o intrigavam na medida em que os temas de certos sonhos individuais eram muito semelhantes aos grandes temas culturais ou mitológicos universais, ainda mais quando o sujeito nada conhecia de mitos ou mitologias. O mesmo ocorria no caso dos desenhos que seus pacientes faziam, geralmente muito parecidos com os símbolos adotados por várias culturas e tradições religiosas do mundo inteiro. Estas similaridades levaram Jung à sua mais importante descoberta: o "inconsciente coletivo". Assim, Jung descobrira que além do consciente e inconsciente pessoais, já estudados por Freud, exitiria uma zona ou faixa psíquica onde estariam as figuras, símbolos e conteúdos arquetípicos de caráter universal, frequentemente expressos em temas mitológicos. Por exemplo, o mito bíbilico de Adão e Eva comendo do fruto da árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e, por isso, sendo expulosos do Paraíso, e o mito grego de Prometeu roubando o fogo do conhecimento dos deuses e dando-o aos homens, pagando com a vida pelo sua presunção são bem parecidos com o moderno mito de Frankenstein, elaborado pela escritora Mary Schelley após um pesadelo, e que toca fundo na mente e nas emoções das pessoas de forma quase "instintiva", como se uma parte de nossas mentes "entendesse" o real significado da história: o homem sempre paga um alto preço pela ousadia de querer ser Deus.

Enquanto o inconsciente pessoal consiste fundamentalmente de material reprimido e de complexos, o inconsciente coletivo é composto fundamentalmente de uma tendência para sensibilizar-se com certas imagens, ou melhor, símbolos que constelam sentimentos profundos de apelo universal, os arquétipos: da mesma forma que animais e homens parecem possuir atitudes inatas, chamadas de instintos, também é provável que em nosso psiquismo exista um material psíquico com alguma analogia com os instintos. Talvez, as imagens arquetípicas sejam algo como que figurações dos próprios insitintos, num nível mais sofisticado, psíquico. Assim, não é mais arriscado admitir a hipótese do inconsciente coletivo, comum a toda a humanidade, do que admitir a existência instintos comuns a todos os seres vivos.

Assim, em resumo, o inconsciente coletivo é uma faixa intrapsíquica e interpsíquica, repleto de material representativo de motivos de forte carga afetiva comum a toda a humanidade, como, por exemplo, a associação do femino com características maternas e, ao mesmo tempo, em seu lado escuro, crueis, ou a forte sensação intuitiva universal da existência de uma transcendência metaforicamente denominada Deus. A mãe boa, por exemplo, é um aspecto do arquétipo do feminino na psique, que pode ter a figura de uma deusa ou de uma fada, da mãe má, ou que pode possuir os traços de uma bruxa; a figura masculina poderá ter uma representação num sábio, que geralmente é representado por um ermitão, etc. As figuras em si, mais ou menos semelhantes em várias culturas, são os arquétipos, que nada mais são que "corpos" que dão forma aos conteúdos que representam: o arquétipo da mãe boa, ou da boa fada, representam a mesma coisa: o lado feminino positivo da natureza humana, acolhedor e carinhoso.
Este mundo inconsciente, onde imperam os arquétipos, que nada mais são que recepientes de conteúdos ainda mais profundos e universais, é pleno de esquemas de reações psíquicas quase "instinitvas", de reações psíquicas comuns a toda a humanidade, como, por exemplo, num sonho de perseguição: todas as pessoas que sonham ou já sonharam sendo perseguidas geralmente descrevem cenas e ações muito semelhanes entre si, senão na forma, ao menos no conteúdo. A angústia de quem é perseguido é sentida concomitantemente ao prazer que sabemos ter o perseguidor no enredo onírico, ou a sua raiva, ou o seu desejo. Estes esquemas de reações "instintivas" (uso esta palavra por analogia, não por equivalência) também se encontram nos mitos de todos os povos e nas tradições religiosas. Por exemplo, no mito de Osires, na história de Krishna e na vida de Buda encontramos similiradades fascinates. Sabemos que mitos encobrem frequentemente a vida de grandes homens, como se pudessem nos dizer algo mais sobre a mensagem que eles nos trouxeram, e quanto mais carismáticos são esses homens, mais a imaginação do povo os encobrem em mitos, e mais esses mitos têm em comum. Estes padrões arquetípicos expressos quer a nível pessoal que a nível mitológico relacionam-se com caracterísiticas e profundos anseios da natureza humana, como o nascimento, a morte, as imagens parterna e materna, e a relação entre os dois sexos.

Outra temática famosa com respeito a Jung é a sua teoria dos "tipos psicológicos". Foi com base na análise da controvérsia entre as personalidades de Freud e um outro seu discípulo famoso, e também dissidente, Alfred Adler, que Jung consegue delinear a tipologia do "introvertido" e do "extrovertido". Freud seria o "extrovertido", Adler, o "introvertido". Para o extrovertido, os acontecimentos externos são da máxima importância, ao nível consciente; em compesação, ao nível insconsciente, a atividade psíquica do extrovertido concentra-se no seu próprio eu. De modo inverso, para o introvertido o que conta é a resposta subjetiva aos acontecimentos externos, ao passo que, a nível insconsciente, o introvertido é compelido para o mundo externo.

Embora não exista um tipo puro, Jung reconhece a extrema utilidade descritiva da distinção entre "introvertido" e "extrovertido". Aliás, ele reconhecia que todos temos ambas as características, e somente a predominância relativa de um deles é que determina o tipo na pessoa. Seu mais famoso livro, Tipos Psicológicos é de 1921. Já nesse período, Jung dedica maior atenção ao estudo da magia, da alquimia,das diversas religiões e das culturas ocidentais pré-cristãs e orientais (Psicologia da Religião Oriental e Ocidental, 1940; Psicologia e Alquimia, 1944; O eu e o inconsciente, 1945).

Analisando o seu trabalho, Jung disse: "Não sou levado por excessivo otimismo nem sou tão amante dos ideais elevados, mas me interesso simplesmente pelo destino do ser humano como indivíduo - aquela unidade infinitesiaml da qual depende o mundo e na qual, se estamos lendo corretamente o signficado da mensagem cristã, também Deus busca seu fim". Ficou célebre a controvertida resposta que Jung deu, em 1959, a um entrevistador da BBC que lhe perguntou: "O senhor acredita em Deus?" A resposta foi: "Não tenho necessidade de crer em Deus. Eu o conheço".

Eis o que Freud afirmou do sistema de Jung: "Aquilo de que os suíços tinham tanto orgulho nada mais era do que uma modificação da teoria psicanalítica, obtida rejeitando o fator da sexualidade. Confesso que, desde o início, entendi esse 'progresso' como adequação excessiva às exigências da atualidade". Ou seja, para Freud, a teoria de Jung é uma corruptela de sua própria teoria, simplificada diante das exigências moralistas da época. Não há nada mais falso. Sabemos que foi Freud quem, algumas vezes, utilizou-se de alguns conceitos de Jung, embora de forma mascarada, como podemos ver em sua interpretação do caso do "Homem dos Lobos", notadamente no conceito de atavismo na lembrança do coito. Já por seu turno, Jung nunca quis negar a importância da sexualidade na vida psíquica, "embora Freud sustente obstinadamente que eu a negue". Ele apenas "procurava estabelecer limites para a desenfreada terminologia sobre o sexo, que vicia todas as discussões sobre o psiquismo humano, e situar então a sexualidade em seu lugar mais adequado. O senso comum voltará sempre ao fato de que a sexualidade humana é apenas uma pulsão ligada aos instintos biofisiológicos e é apenas uma das funções psicofisiológicas, embora, sem dúvida, muitíssimo importante e de grande alcance".

Carl Gustav Jung morreu a 6 de junho de 1961, aos 86 anos, em sua casa, à beira do lago de Zurique,em Küsnacht após uma longa vida produtiva, que marcou - e tudo leva a crer que ainda marcará mais - a antropologia, a sociologia e a psicologia.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Pequena biografia de um gigante

Andres Segovia

É bom voltarmos no tempo e descobrirmos as raízes do que gostamos. Tratando-se de música erudita, o estudante sempre chega no dia de se questionar porque o violão, um instrumento de música popular por essência, está embutido tão firmemente na música erudita. A resposta pode levar você a 1913, na cidade espanhola de Madrid. Nesse ano um violonista subia ao palco e desafiava o público na sua estréia profissional, usando um instrumento de cordas para transcrever obras de Bach. Era Andres Segovia levando o violão à música clássica.

Antes, vamos falar um pouco do caminho dele até Madrid. O espanhol nascido em Jaén estudava piano e violoncelo desde a infância, mas logo se interessaria pelo violão, apesar do desprezo com o qual o instrumento era visto na época. As dificuldades para encontrar professores obrigaram-no a desenvolver técnica própria, de maneira autodidata e intuitiva. Isso o levou a diversos experimentos e, em devido momento, a trazer todo o mundo erudito, que já estudava, para as cordas.

Voltando ao palco e a repercussão: os críticos ridicularizaram Andres Segovia. Diziam que jamais o violão poderia ser considerado um instrumento de música clássica. Segovia provou o contrário, surpreendendo não só aquela platéia de Madrid, mas outras que viriam em seguida.

O violão da época não tinha ressonância suficiente para preencher a acústica de uma sala de concertos, mas Segovia aperfeiçoou sua técnica e convocou luthieres do mundo inteiro para experimentar novos materiais e designs, a fim de aumentar a amplificação natural do violão. Com o advento das cordas de nylon e uso de madeiras mais trabalhadas, finalmente o violão poderia produzir tons mais consistentes e projetar o som muito mais longe.

Com o devido aparato e convencido de sua empreitada com o instrumento, Segovia viajou o mundo arrebatando adeptos e encantando compositores como Heitor Villa-Lobos, Federico Moreno Tórroba, Manuel Ponce, Alexander Tansman e Mario Castelnuovo-Tedesco. Detalhe: muitos desses compositores só decidiram compor para o violão depois de conhecer Segovia e serem estimulados por seu virtuosismo.

Durante sua carreira, Segovia ampliou o repertório e as possibilidades expressivas do violão, mediante a transcrição para este instrumento de mais de 150 peças de compositores barrocos – em especial Bach, Couperin e Lameau – escritas originalmente para alaúde, guitarra espanhola e cravo. O trabalho do espanhol resultou em um grande conjunto de obras compostas por compositores com forte influência romântica e neoclássica, em que a obra do brasileiro Villa-Lobos sobressai como a mais arrojada em termos de linguagem instrumental e originalidade de concepção. É interessante notarmos esta parceria, pois da colaboração entre Segovia e Villa-Lobos resultou a série de "Doze Estudos" (1929). Obra de importância fundamental no repertório atual do instrumento, é original nos seus achados técnicos, melódicos e harmônicos. Dedicados a Segovia, os estudos abriram um novo caminho na escrita idiomática para o instrumento.

O violonista não só foi professor, mas influência direta para milhares de artistas no mundo inteiro. Aos 92 anos de idade e ainda cheio de energia, Segovia realizava "masterclasses" (aulas especiais) nas mundialmente famosas Julliard School e Manhattan School of Music, em Nova Iorque (palco de seu primeiro concerto, em 1928).

Segovia morreria em 1987, em Madrid, a mesma cidade onde estreou profissionalmente diante de uma platéia descrente com sua subversão. Mal sabiam aqueles presentes que naquela noite, de 1913, presenciaram um dos acontecimentos musicais mais importantes da primeira metade do século XX. Se o violão é agora um instrumento respeitado nas salas de concerto e faz parte do currículo das maiores escolas de música do mundo, é graças ao trabalho e esforço de Andres Segovia de, naquela noite, subir no palco e ousar.

Em sua homenagem foi fundado um centro cultural na sua cidade natal Jaén, onde diversos estudantes seguem dissecando os ensinamentos deixados pelo mestre. O corpo de Segovia repousa em um mausoléu dentro das instalações do centro cultural.